terça-feira, 25 de maio de 2010

VISÃO DE FUTURO

Senadora Marina Silva diz que o Brasil precisa antecipar o futuro
     Marina Silva concedeu entrevista a revista Época na semana passada e abordou diversas questões. Entre os assuntos debatidos estavam a sua forma de governo caso eleita, o seu vice-candidato e o empresariado, a reforma agrária e o MST e os ideais e a política social.
     Havia apenas duas coisas que Marina Silva desejasse quando era criança. A primeira, diz ela, era andar nos aviões que via sobrevoando a selva acriana onde nasceu. A segunda era ter uma fotografia sua. “Agora o que mais tenho feito é andar de avião e tirar foto”, disse Marina, na tarde da quinta-feira, 20, ao se despedir de um rapaz que posara a seu lado para um retrato feito com celular no corredor do Senado.
     As viagens e as fotografias são parte do esforço de Marina para viabilizar sua candidatura à Presidência pelo Partido Verde. Ela tem corrido o Brasil tentando convencer os eleitores de que “não há nada mais potente do que uma ideia cujo tempo chegou”, como gosta de repetir, citando o poeta francês Victor Hugo. Marina flerta com o improvável. Na infância sobreviveu a cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose.
     Agora, com escassos 8% das intenções de voto e o menor tempo de TV entre os três principais candidatos, ela tem pela frente o desafio mais difícil da carreira. Com 52 anos e 51 quilos, se diz preparada. Em seu gabinete, no Senado, Marina falou a ÉPOCA sobre planos para um futuro governo e sobre suas memórias.
      Por que a senhora deve ser a próxima presidente do Brasil?
     Marina Silva – Uma das coisas mais importantes na vida de um país é a capacidade de preservar as conquistas e, ao mesmo tempo, ter uma visão do futuro. Conseguimos algumas conquistas: estabilidade econômica e avanço na política social, mas as pessoas estão tratando isso como se fosse o fim da história, estão perdendo a capacidade de antecipar o futuro. E o momento privilegiado para fazer a integração entre o passado e o futuro é a eleição. Sei que o Brasil está preparado para ter uma mulher na Presidência. Uma mulher capaz de integrar o olhar feminino ao olhar masculino, a intuição e a racionalidade, e de colocar novos valores na política.
      Há espaço para a defesa da “sustentabilidade” no Brasil, um país em que grande parte das pessoas não tem creche para deixar os filhos?
     Marina - A ideia da sustentabilidade é um imperativo. O povo tem uma sabedoria bem maior do que as lideranças políticas. As pessoas podem até não transformar em palavras aquilo que sentem. Mas elas se colocam em movimento para fazer. É assim que as grandes transformações acontecem. Foi assim que aconteceu na África do Sul, foi assim com Martin Luther King nos Estados Unidos.
      Suas propostas são equivalentes às de Luther King?
     Marina – Eu não seria pretensiosa a esse ponto. Falo como uma metáfora histórica. Até porque essas ideias não são minhas. São fruto de 30 anos de luta socioambiental no mundo. Hoje os processos são multidimensionais e as lideranças são multicêntricas.
      A senhora fala de modo muito complexo. As pessoas a entendem?
     Marina – Entendem. Lá no meio do seringal, com o Chico Mendes, quando começamos a ouvir falar sobre ecologia e meio ambiente, alguém poderia ter dito para o Fernando Gabeira (deputado federal (PV-RJ)): “Vocês acham que esses seringueiros vão entender isso?”. Nós entendíamos tudo porque nós já fazíamos aquilo que eles diziam em palavras.
      O economista Eduardo Gianetti está colaborando com seu programa de governo e é conhecido como um liberal. Sua trajetória é de ligação com movimentos sociais. Por que estão juntos agora?
     Marina – Ele é um pensador, um economista que elabora para além das questões da economia. Fiquei muito bem impressionada com a forma como ele vê o desafio da sustentabilidade à luz desse esforço de transitarmos para um novo modelo de desenvolvimento. Quem foi que disse que as pessoas têm de pensar da mesma forma em tudo?
      Seu governo será de esquerda?
     Marina – A gente empobrece o debate com essas caracterizações. Não vejo ninguém me cobrando que meu governo seja de esquerda. Aliás, não vejo ninguém cobrando isso nem do presidente Lula. A gente tem de cobrar do governo que ele seja justo, honesto, comprometido com os princípios republicanos.
      Como vê a reforma agrária e as ações do Movimento dos Sem Terra?
      Marina – A gente tem de separar as duas coisas. A luta pela reforma agrária é legítima. No Brasil não se teve o atendimento dessa questão histórica, mas a forma de lutar por ela não pode extrapolar o Estado Democrático de Direito. Aqueles que não extrapolam têm o direito de se expressar. Aqueles que extrapolam não podem ser tolerados. Mas também não dá para generalizar a luta dos sem-terra como se todos estivessem extrapolando. Da mesma forma que não vejo ninguém generalizando em relação aos ruralistas, que muitas vezes usam da jagunçagem para se contrapor à reforma agrária.
      A senhora teve rusgas com o ex-governador de Mato Grosso Blairo Maggi. Como a senhora vê o agronegócio?
      Marina – A agricultura é importante para o nosso país, é responsável por mais de 30% da nossa balança comercial. Ainda temos ruralistas que não se conectaram a duas coisas: o respeito ao meio ambiente e aos direitos sociais conquistados na Constituição de 1988. Mas não se pode demonizar todo o agronegócio. Temos é que combater aquela cultura que, em lugar de passar no teste, fica tentando mudar o teste. Precisamos deixar de ser vistos como aqueles que produzem em prejuízo do meio ambiente e das questões sociais. Isso vai ser uma vantagem na disputa com aqueles que tentam nos prejudicar no mercado externo com barreiras não tarifárias.
      A escolha do empresário Guilherme Leal para ser seu vice é uma tentativa de conquistar o empresariado?
     Marina – Tem uma parte do empresariado que está com a Dilma, uma parte com o Serra. E uma parte do empresariado, de vanguarda, pessoas que já estão atualizando seus negócios, que estão muito próximas a mim e ao Guilherme. A gente não pode ter pretensão de unanimidade e se fechar ao diálogo.
Data: 4/7/2010
Fonte: Época

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